Um gênio em casa de rei

•Abril 27, 2009 • Deixe um comentário

Como um amor profundo, me obrigas a voltar a ti. Sempre.

Evito, busco saídas e assuntos, mas antes que qualquer ideia digna de nota chegue, você age. Como felino, gestos suficientes e precisos. Como humano, genial.

Genial é mesmo a palavra, pois fenômeno é palavra para italiano ler. 

Existem lances que dispensam palavras e não obstante as mesmas palavras não resistem, elas pedem passagem para celebrar, para dizer aquilo que só os olhos podem ver – e entender.

Travo na garganta. Riso incontido. 

Poesia para os olhos. É isso.

Mensagem aos peixes

•Março 17, 2009 • 2 Comentários

O avião da minha flor no rio se afogou. Mas, Deus, como saber se ela estava mesmo lá? Se não teve overbooking, se a mala de rodinhas não enguiçou ou se o sono dos justos não lhe atrasou?

– Não se sabe, menino, e a vida segue aqui no chão.

Buscas, salvamento, caixa-preta. Tudo isso são palavras dos jornais, as minhas vão em outra direção.

Enviei um último recado, para lhe recordar de quanto a quero, sem saber se a doce fêmea minhas palavras pôde ler. E me peguei num devaneio tão moderno quanto absurdo que perguntava se a celulares submersos meus lamentos chegariam.

Não sei. O telemarketing tampouco sabe e agora não mais importa.

Minhas palavras eu grifei, meus sentimentos estão gravados e se a flor não pôde ler, ao menos aos peixes chegaria meu sofrer.

Digo e repito

•Março 9, 2009 • Deixe um comentário

Senhoras e Senhores, o Fenômeno voltou”

Foi assim que um narrador esportivo contou o gol de Ronaldo. E peço licença aos que leem minhas linhas para voltar ao tema. Sim, porque efetivamente o Fenômeno voltou aos campos no domingo, 08 de março de 2009, Dia Internacional da Mulher. O palco não era Goías, mas a bela Presidente Prudente.

O “Gordito”, como o chamou um prestigiado jornal esportivo argentino fez, em 30 minutos, mais do que todo o resto do seu time no jogo inteiro.

E escreveu mais um capítulo épico em sua história já grandiosa, empatando no último minuto um clássico dado como perdido. Não há mais o que dizer desse menino, só nos resta admirá-lo. 

Por fatos como este, tão comuns em sua carreira, ousei colocá-lo só atrás de Pelé. Mané talvez tenha sido mais genial, Zico mais completo, Maradona tinha o mesmo poder de decisão, mas teve sua carreira dramaticamente abreviada, coisa que, por sinal, também deveria ter acontecido com Ronaldo, não fosse a sua eterna fome de bola. Por isso, depois de Pelé, vem ele.

Pisando nos pastos distraído

•Março 5, 2009 • Deixe um comentário

Quinze anos depois, muitas Europas depois, muitas derrotas, muitas conquistas, muitas baladas, muitas ragazzas, muitas chicas, muita plata, muito tudo depois.

Quem jogou na rua sabe: um boleiro é e será sempre um boleiro – um menino e seu brinquedo.

Prendeste os meus dois e mais outros milhões de olhos hoje. Estás de volta ao Brasil que lhe criou, na imensidão dos campos centrais do Planalto, para bater uma pelota a mais contra a dor.

Está de volta um menino que teimam em chamar de astro e um astro que teima em ser menino, para brincar na grama e enlouquecer quem não se engana: nosso coração é um rachão de alegrias e drama.

Velho, gordo, gênio ou Fenômeno? És tudo e mais um pouco e pouco importa, pois hoje, corintiano ou não, cada brasileiro se refaz. E aos corintianos, resta o riso fácil, a alegria e o prazer de ver vestindo o manto talvez o maior de todos, depois de Pelé.

À estupidez humana

•Fevereiro 19, 2009 • Deixe um comentário

Ofereço brigas de torcida, ofereço mais um dia vivo neste planeta ferido. Acrescento-lhe imensos icebergs desgarrados, ursos polares afogados, campos e mais campos de futebol desmatados.

Políticos por profissão, malandros engravatados e um tédio maior que tudo. Impossível outra explicação: o que nos paraliza é o tédio. Seu Caetano enganou-se, não é a força da grana. É o tédio que ergue e destrói. Como meninos e seus domingos chuvosos, como cães esquecidos num feriado em São Paulo, como velhos e seus natais em asilos, como prisioneiros sem direito à visitas íntimas.

E não há vergonha dos meninos baleados, não há vergonha alguma entre os 500 picaretas e os 180 milhões de otários. Se a vergonha estivesse na cara, teríamos os rostos no chão. 

Somos foliões do pântano, mas é carnaval. Não, por favor, não me diga mais quem é você.

Carioca no ar

•Janeiro 30, 2009 • Deixe um comentário

Ninguém faz samba só porque prefere, dizia a canção enquanto Natalia sambava. Linda e carioca, sambava como ninguém lá de dentro de sua minissaia florida. Perdida numa noite cinza, Natalia sambava em São Paulo.

Funcionária de uma companhia aérea, mais lisa que Mané no Maraca, mais ligeira que malandro descendo o morro e mais bela que um final de tarde em Ipanema. Ao som de Cacique de Ramos, no fiofó da Faria Lima ela brilhava.

Acontece que muitos levaram seus dribles, mas poucos souberam a verdade: Natalia era piloto.

É isso mesmo, mermão, piloto de avião. Vinte e poucos anos, rosto de boneca, piloto desde os 19.

O Rio de Janeiro continua lindo, São Paulo continua feia, mas para encontrar uma piloto de avião sambando de minissaia, amigo, você precisa estar em São Paulo.

Aquilo era demais, um homem não pode caber em si de tantas fantasias que se materializavam ali.

Difícil, amigo, ter uma mulher assim, melhor fez outro amigo, pousou em seu lugar e ria:

Diga aí, Natália, como é que faz para um avião pilotar outro avião? Ela ria também, saía dali, bailava entre atônitos passantes e voltava um pouco mais bela. O camarada paulistano era discreto, não pegava, não tocava e nem roçava – tinha medo de avião, não daquele modelo, mas tinha medo de avião de verdade, daqueles de aço e que correm pelas pistas de decolagem.

Natalia não descia do salto que a deixava ainda mais alta, sua linda saia florida bailava enquanto a linda menina voava. O camarada, cansado, no outro dia dirigiria um novo dia, ciente de que aquela máquina ele não pilotaria, seguro estava que era hora de voar.

Sim, voar para casa, mas não sem antes uma última palavra: Natália, muito triste você não me dar bola, porque se desse conheceria pra valer um piloto de avião de verdade.

Ao jovem escritor

•Janeiro 21, 2009 • Deixe um comentário

Em algum poema antigo disse, um dia, que palavras são sereias.

Sim, são. E não encontro outro motivo para escrever. Encantando, assim, a mim e a outros. 

E hoje, enquanto escrevo, um jovem amanhece com o doce gosto de uma vitória escrita e falada. Admirada por um mundo inteiro. Estivesse eu em seu lugar, é certo que estaria despertando agora, por volta das 3h da tarde, com a ressaca do grande baile, da champanhe, dos cigarros. Ressoaria em meus ouvidos o eco de minhas próprias palavras, pronunciadas horas antes pelo primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos.

Estando ele em seu lugar, não creio que seu despertar tenha sido muito diferente.

Hoje, Jon Favreau é um nome impresso em jornais do mundo todo; circula por e-mails, blogs, bocas e mentes das pessoas que formam a minha, a sua, opinião. Admiram-se, como eu, com o seu talento; exaltam, como eu, a sua história; aplaudem, como eu, sua coragem ao abordar um certo senador Barack e sugerir-lhe que excluísse uma frase de seu discurso.

Uma bela história, de fato, encontrada em diversos sites por quem se interessar.

No entanto, volto ao tema: a linda história desse jovem só tornou-se história graças ao seu domínio sobre…sereias.

Um homem que crê dominar sereias é um tolo. Podemos cantar com elas, mas estaremos, ainda assim, tão ou mais encantados quanto todos os outros que nos escutam.

Caro Favreau, o encanto é inevitável, o talento deve ser expresso, mas não se engane: das sereias que cantas agora serás herdeiro e servo amanhã.