Carioca no ar
Ninguém faz samba só porque prefere, dizia a canção enquanto Natalia sambava. Linda e carioca, sambava como ninguém lá de dentro de sua minissaia florida. Perdida numa noite cinza, Natalia sambava em São Paulo.
Funcionária de uma companhia aérea, mais lisa que Mané no Maraca, mais ligeira que malandro descendo o morro e mais bela que um final de tarde em Ipanema. Ao som de Cacique de Ramos, no fiofó da Faria Lima ela brilhava.
Acontece que muitos levaram seus dribles, mas poucos souberam a verdade: Natalia era piloto.
É isso mesmo, mermão, piloto de avião. Vinte e poucos anos, rosto de boneca, piloto desde os 19.
O Rio de Janeiro continua lindo, São Paulo continua feia, mas para encontrar uma piloto de avião sambando de minissaia, amigo, você precisa estar em São Paulo.
Aquilo era demais, um homem não pode caber em si de tantas fantasias que se materializavam ali.
Difícil, amigo, ter uma mulher assim, melhor fez outro amigo, pousou em seu lugar e ria:
Diga aí, Natália, como é que faz para um avião pilotar outro avião? Ela ria também, saía dali, bailava entre atônitos passantes e voltava um pouco mais bela. O camarada paulistano era discreto, não pegava, não tocava e nem roçava – tinha medo de avião, não daquele modelo, mas tinha medo de avião de verdade, daqueles de aço e que correm pelas pistas de decolagem.
Natalia não descia do salto que a deixava ainda mais alta, sua linda saia florida bailava enquanto a linda menina voava. O camarada, cansado, no outro dia dirigiria um novo dia, ciente de que aquela máquina ele não pilotaria, seguro estava que era hora de voar.
Sim, voar para casa, mas não sem antes uma última palavra: Natália, muito triste você não me dar bola, porque se desse conheceria pra valer um piloto de avião de verdade.
